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29 agosto 2011

À Prova de Morte

Em agosto de 1976, o cineasta francês Claude Lelouch adaptou uma câmera giroscopicamente estabilizada na frente de um Ferrari 275 GTB e convidou um amigo piloto profissional de Fórmula 1, para fazer um trajeto no coração de Paris na maior velocidade que ele pudesse.
A hora seria logo que o dia clareasse. O filme só dava para 10 minutos e o trajeto seria de Porte Dauphine, através da Av. Foch e do Louvre até a Basílica de SacreCoeur. Lelouch não conseguiu permissão para interditar nenhuma rua no perigoso trajeto a ser percorrido.
O piloto completou o circuito em menos de 9 minutos, chegando a 324 km por hora em certos momentos. O filme mostra-o furando sinais vermelhos, quase atropelando pedestres, espantando pombos e entrando em ruas de sentido único. O piloto teria sido René Arnoux ou Jean-Pierre Jarier?
Quando mostrou o filme em público pela primeira vez, Claude Lelouch foi preso. Mas ele nunca revelou o nome do piloto de fórmula 1 que pilotou a máquina e o filme foi proibido, passando a circular só no underground.




(fones e tela cheia recomendados)

09 junho 2011

Estupro Internacional

(Falando no ocidente...)

Strauss-Kahn: uma metáfora das práticas do FMI



por Leonardo Boff*

Strauss-Kahn.

O leitor ou leitora pensará que foi uma tragédia o fato de o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Strauss-Kahn, ter dado asas ao seu vício, a obsessiva busca por sexo perverso, nu, correndo atrás de uma camareira negra na suíte 2806 do hotel Sofitel em Nova York, até agarrá-la e forçá-la a praticar sexo, com detalhes descritos pela Promotoria de Nova York e que, por decência, me dispenso de dizer. Para ele não era uma tragédia. Era uma vítima a mais, entre outras, que fez pelo mundo afora. Vestiu-se e foi direto para o aeroporto. O cômico foi que, imbecil, esqueceu o celular na suíte e assim pôde ser preso pela polícia ainda dentro do avião.

A tragédia ocorreu não com ele, mas com a vítima que ninguém se interessa em saber. Seu nome é Nifissatou Diallo, da Guiné, africana, muçulmana, viúva e mãe de uma filha de 15 anos. A polícia encontrou-a escondida atrás de um armário, chorando e vomitando, traumatizada pela violência que sofreu por parte do hóspede da suíte, cujo nome sequer sabia. A maior parte da imprensa francesa, com cinismo e indisfarçável machismo, procurou esconder o fato, alegando até uma possível armadilha contra o futuro candidato socialista à Presidência da República. O ex-ministro da Cultura e Educação, Jacques Lang, de quem se poderia esperar algum esprit de finesse, com desprezo, afirmou: “Afinal não morreu ninguém”. Que deixe uma mulher psicologicamente destruída pela brutalidade de Mr. Strauss-Kahn não conta muito. Finalmente, para essa gente, se trata apenas de uma mulher e africana. Mulher conta alguma coisa para este tipo de mentalidade atrasada, senão para ser mero “objeto de cama e mesa”?

Para sermos justos, temos que ver este fato a partir do olhar da vítima. Aí dimensionamos seu sofrimento e a humilhação de tantas mulheres no mundo que são sequestradas, violadas e vendidas como escravas do sexo. Só uma sociedade que perdeu todo o sentido de dignidade, e se brutalizou pela predominância de uma concepção materialista de vida que faz tudo ser objeto e mercadoria, pode possibilitar tal prática. Hoje, tudo virou mercadoria e ocasião de ganho desde o bens comuns da humanidade, privatizados (commons como água, solos, sementes), até órgãos humanos, crianças e mulheres prostituídas. Se Marx visse essa situação ficaria seguramente escandalizado, pois para ele o capital vive da exploração da força de trabalho, mas não da venda de vidas. No entanto, já em 1847, na Miséria da Filosofia, intuía: “Chegou, enfim, um tempo em que tudo o que os homens haviam considerado inalienável se tornou objeto de troca, de tráfico e podia alienar-se. O tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas jamais trocadas, dadas, mas jamais vendidas: adquiridas mas jamais compradas como a virtude, o amor, a opinião, a ciência e a consciência, em que tudo passou para o comércio. Reina o tempo da corrupção geral e da venalidade universal… em que tudo é levado ao mercado”.

Strauss-Kahn é uma metáfora do atual sistema neoliberal. Suga o sangue dos países em crise como a Islândia, a Irlanda, a Grécia, Portugal e agora a Espanha, como fizera antes com o Brasil e os países da América Latina e da Ásia. Para salvar os bancos e obrigar a saldar as dívidas, arrasam a sociedade, desempregam, privatizam bens públicos, diminuem salários, aumentam os anos para as aposentadorias, fazem trabalhar mais horas. Só por causa do capital. O articulador destas políticas mundiais, entre outros, é o FMI, do qual Strauss-Kahn era a figura central.

O que ele fez com Nafissatou Diallo é uma metáfora daquilo que estava fazendo com os países em dificuldades financeiras. Mereceria cadeia não só pela violência sexual contra a camareira, mas muito mais pelo estupro econômico do povo, que ele articulava a partir do FMI. Estamos desolados.

* Leonardo Boff é teólogo, filósofo e escritor.

** Publicado originalmente no site Adital.

07 junho 2011

Gábor Szabó

Falando sobre música...

Gábor Szabó foi um músico violonista, nascido em Budapeste, que emigrou fugido da Húngria para os Estados Unidos nos anos 50, durante a Revolução Húngara de 1956.

O cara conseguia, entre uns pileques e outros, misturar o jazz, rock borbulhante dos anos 60 e 70 e ainda jogar uma pitada de música folk húngara nos projetos em que ele participava.

Dentre algumas versões do violonista vale ressaltar:

Carcará (com participação de Charles LLoyd) - de João do Vale
Corcovado - Tom Jobim
Lucy in the Sky With Diamonds - Beatles


http://grooveshark.com/s/Comin+Back/2PURpH?src=5



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11 fevereiro 2011

Pequenas Igrejas, Grandes Negócios

Folha de São Paulo...

Eu, Claudio Angelo, editor de Ciência da Folha, e Rafael Garcia, repórter do jornal, decidimos abrir uma igreja.
Com o auxílio técnico do departamento Jurídico da Folha e do escritório Rodrigues Barbosa, Mac Dowell de Figueiredo Gasparian Advogados, fizemo-lo. Precisamos apenas de R$ 418,42 em taxas e emolumentos e de cinco dias úteis (não consecutivos) . É tudo muito simples.
Não existem requisitos teológicos ou doutrinários para criar um culto religioso. Tampouco se exige número mínimo de fiéis.

Com o registro da Igreja Heliocêntrica do Sagrado Evangélio e seu CNPJ, pudemos abrir uma conta bancária na qual realizamos aplicações financeiras isentas de IR e IOF. Mas esses não são os únicos benefícios fiscais da empreitada. Nos termos do artigo 150 da Constituição, templos de qualquer culto são imunes a todos os impostos que incidam sobre o patrimônio, a renda ou os serviços relacionados com suas finalidades essenciais, as quais são definidas pelos próprios criadores. Ou seja, se levássemos a coisa adiante, poderíamos nos livrar de IPVA, IPTU, ISS, ITR e vários outros "Is" de bens colocados em nome da igreja.
Há também vantagens extratributárias. Os templos são livres para se organizarem como bem entenderem, o que inclui escolher seus sacerdotes. Uma vez ungidos, eles adquirem privilégios como a isenção do serviço militar obrigatório (já sagrei meus filhos Ian e David ministros religiosos) e direito a prisão especial.

03 fevereiro 2011

Hoje eu acordei na cidade errada.

Não era Porto, mas a cidade do meu coração. Nela eu vi os edifícios tão cinzas e mal-cuidados e as pessoas que eu tanto amo.

Veio-me uma, depois duas, três em fotografias desfocadas seguidas de dez milhões de desconhecidos.

Eu pensei no caos, na violência, no dinheiro colorido - e tão triste! como se quisesse se convencer de que é capaz de vencer às belezas das gentes.

Eu pensei no calor, no vapor que sobe e toma forma visível no asfalto esburacado e no quanto eu amo e tenho preguiça de tudo isso.

Hoje eu acordei na cidade grande, sentado numa esquina de bar, delirando com sua insensatez.

Quanto sentimento cabe dentro de mim.

As vezes duvido que ele fica aqui dentro. É tão grande que desconfio que perambula por aí, à toa. Num dia de sorte, como hoje, nos encontramos e me sinto tão grande em mim e tão pequeno perto dele.

http://listen.grooveshark.com/s/Mood+Indigo/37IsDC?src=5

11 novembro 2010

Proposta de Quebra de Barreiras


Eu ainda não vi nenhuma repercusão sobre isso no Blog, então vai:

“Ser mulher é muito caro”

O cartunista Laerte, que passou a se vestir de mulher, diz que suas despesas agora incluem manicure, depilação, lingeries e sapato


Confira o ensaio IG e a matéria toda AQUI

05 novembro 2010

Continuidade e Manifestação

O propósito inicial desta postagem seria sobre uma notícia que circulou aqui em Portugal, um tanto bizarra, em que milhões - eu disse MILHÕES - de dólares falsos foram apreendidos no Porto. Até aí uma notícia cotidiana, qualquerumzainha, senão fosse pelo fato das notas de 100 dólares apresentarem o rosto de Pinto da Costa, presidente atual do Futebol Clube do Porto, ao invés da famigerada cara verde de Benjamin Franklin.
Passado o momento, pus-me a ler sobre os acontecimentos acerca da obra de Nuno Ramos e comecei a questionar-me sobre a integridade deste blog.

Afinal, o que fazemos nós aqui?
Imagino que cada um tenha contribuição importante para a formação e "alma" do Mundo à Revelia; a vitalidade deste espaço depende das experiências individuais e suas personalidades são expostas em cada uma das entradas. Questiono-me, entretanto, até que ponto a sobreposição de "momentos únicos" e conhecimentos particulares interfere na conversa e na fluidez de uma discussão.

Eu mesmo estava à beira de uma exposição completamente descontextualizada. De fato não moro em São Paulo, por certo não estou à par das notícias sobre a Bienal, mas que desculpa tenho eu (temos nós) de sobrepor um argumento ao outro?

O que quero dizer, em linhas curtas - é difícil ser sintético - é que por vezes atropelamo-nos uns aos outros para expormos coisas "legais", que em si só tem uma função de entretenimento ou reflexão sobre aquele argumento, e quanto ao resto? Bem o resto está lá.

Essa notícia do Nuno Ramos realmente me chocou. Devo ser honesto e parcial: estou do lado do artista. A obra de Nuno Ramos é por si um excelente questionamento a toda a esta repressão do cotidiano urbano e do nosso papel. Sem dúvida possui um caráter ideológico muito intenso e propositalmente provocativo.

Mexer com a vida em nome da arte é algo muito complicado. Sinceramente não vejo nenhuma infração ao matar os três urubus e acho uma hipocrisia quando um carnívoro descontrolado (como a maioria de nós) reclama pela vida do "passarinho" quando depredamos um boi sem ao mesmo ver a cara do animal nas embalagens do supermercado.

Matamos muitos "urubus" cotidianos, dos quais nenhum nos comove profundamente, mas quando enfrentamos cara-a-cara e somos postos ao questionamento - como no caso da obra da Bienal - ai sim (com o perdão do trocadilho) o bicho pega!

A obra - e toda a sua discussão - ficou reduzida ao nada: ao direito dos três urubus em cativeiro. Mas e nós, os verdadeiros urubus em cativeiro? Por que ao invés de irmos lá e picharmos sobre um naco de madeira "liberte os urubus", não nos pomos a pensar o conceito de "aprisionamento urbano"? Por que, a partir de uma obra tão profunda nós simplesmente nos esquivamos do fato de estarmos todos fadados a uma estrutura social escrota e pedimos liberdade aos animaizinhos lá deixados?

Pixar na bienal é um ato-em-si. Pixei, rompi, causei. É quase como se houvesse um lugar para os transgessores dentro do aparato estatal.

E nós, Revelia, quando é vamos criar um fluxo de idéias - um aprofundamento nas discussões? Estou cansado de tanta coisa bonita.

23 outubro 2010

Fim da Área VIP, já!

Sou contra a violência, em todos os sentidos, mas peço o fim da(s) área(s) VIP, JÁ!


Chega dessa coisa retrógrata, separatista, humilhante, medieval!
Área comum é o que pega. Rico e pobre. Todos comprando a coca-cola do mesmo isopor.

30 setembro 2010

Reciclagem

Aqui em Portugal há um programa de incentivo à reciclagem, do qual eu apoio muito.
Por todos os cantos vê-se os "ecopontos", do metrô às calçadas das ruas comerciais.

Realmente não há desculpas para não fazê-lo.

E aqui uma propaganda atual sobre a Sociedade Ponto Verde, "patrocinadora" deste projeto.


29 setembro 2010

Preconceito Lingüístico: Brasileiro não sabe português. Só em Portugal se fala bem português

As línguas são diferentes. Elas sofrem variações diacrônicas (conforme a época), diatópicas (conforme o lugar), diastráticas (conforme a classe social ou especialização dos falantes) e ainda conforme a situação (formal ou informal).

Apesar de tudo isso, se a língua estabelecer um canal de comunicação entre os falantes, ela já desempenhou o seu papel. E eu até poderia terminar esse texto por aqui.

Mas eu preciso dizer que, a mania quase doentia que o brasileiro tem de se diminuir perante o resto do mundo, dá origem a mais esse mito sobre a língua. Só em Portugal se fala português corretamente.

Meus amigos, nós somos sim uma antiga colônia de Portugal, mas um abismo lingüístico de 500 anos de evolução e quase um século de independência separa nossas línguas.

Diante disso, eu pergunto: por que as pessoas ainda insistem em dizer que os portugueses são os verdadeiros “donos” da língua? Por que uma língua independente, com sua própria gramática e regras, como o português brasileiro, continua a ser vista como inferior à outra?

Me digam se isso acontece com o inglês americano? Afinal, eles também foram colônia da Inglaterra. Por que o inglês da Inglaterra não é muito mais bonito que o inglês americano?

O português de Portugal é diferente do português do Brasil, assim como o português do Cabo Verde é diferente do português de Moçambique, e não é nenhum acordo lingüístico que vai mudar isso. Estamos falando de culturas diferentes, de povos diferentes e de situações sociais diferentes.

A gramática (ou os gramáticos) só precisam entender que frases como “Você viu ela chegar” ou “Eu conheço ele”, são construções totalmente comuns ao português brasileiro. A um falante — ou mais ainda, a um aluno — não devem ser impostas regras que simplesmente não fazem parte da realidade de NENHUM usuário da língua, portanto, totalmente artificiais, numa tentativa inútil de fazer nações que estão a 10.000 quilômetros de distância, falarem exatamente do mesmo jeito.

Referências

BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo – SP, Edições Loyola, 2002, 18 ed

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E um comentário:

Ontem estava numa loja de livros, aqui no Porto, quando me deparei com uma senhora dizendo. "O pá, mas no Brasil, lá se tem um português estragado!", e quando perguntei a ela se ela concordava com aquilo, disse-me convencida:

"Quem foi que descobriu o Brasil? Portugal! Pois somos nós que dominamos a língua, a língua é portuguesa".

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E outro comentário:

Frases do dia-a-dia

"Nunca fui a Nuruega, mas gostaba de ir"

"A pixina tá bazia".

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Planos:

Vou fazer um pequeno recorte de como os habitates do Porto e Lisboa falam, só para terem uma idéia.
Assim que tiver uma câmera filmadora...

19 maio 2010

Banksy 3 - A revanche

Obras de grafiteiro Banksy são roubadas de galeria em Londres.

Duas gravuras do artista e grafiteiro Banksy avaliadas em cerca de R$ 35 mil foram roubadas da galeria Soho, em Londres, na Inglaterra. Segundo informou o site da agência de notícias BBC, a ação aconteceu no último dia 1º de maio e foi conduzida por um homem e uma mulher.

De acordo com a fonte, o homem usou uma placa de trânsito para quebrar o vidro do prédio e roubar as artes, enquanto a mulher vigiava as imediações. As impressões medem cerca de 90 x 120 cm e são montadas em molduras de vidro. Os suspeitos ainda não foram localizados pela polícia.

A primeira impressão, "Happy Choppers", é a número 118 de uma série de 750 e estava à venda por cerca de R$ 19 mil. Já a segunda, "Nola [Grey Rain]", era a nº 15 de uma série de 63 e custava cerca de R$ 16 mil.

Artista múltiplo

Assim como os irmãos paulistanos Otávio e Gustavo Pandolfo --osgemeos--, Banksy se tornou famoso em todo o mundo pelos grafites, mas logo enveredou para as artes visuais.

Conhecido por não revelar a sua verdadeira identidade, o artista já pintou muros da Cisjordânia e uma figura de tamanho real de um detento de Guantánamo na Disneylândia da Califórnia. Em 2009, a maior de suas exposições foi inaugurada em Bristol, sua cidade-natal, no oeste da Inglaterra. A mostra exibiu instalações gigantescas e 70 novos trabalhos.

De um artista de grafite para uma estrela global, o trabalho de Banksy se tornou tão precioso que muitos de seus trabalhos de rua tem sido recuperados e vendidos, incluindo uma pintura em uma parede de Londres que alcançou 208.100 libras (US$ 340 mil) em um leilão on-line em 2008.


*Com agências internacionais


Notícia retirada do UOL, clique aqui para ver o original.

05 março 2010

Nada de Novo no Front

A polícia do Estado americano de Nova Jérsei ordenou que uma família cobrisse uma escultura de gelo inspirada na Vênus de Milo, depois da queixa de um vizinho.

Eliza Gonzalez esculpiu o dorso da mulher nua com seus filhos no jardim da frente de sua casa em Rahway depois de uma tempestade de neve.

Muitas pessoas elogiaram a escultura, mas um policial informou que um vizinho reclamou por considerá-la muito ousada.

O próprio policial que visitou a família elogiou a obra dizendo que ela era "muito boa", afirma a imprensa americana.

Entre as opções dadas pela polícia - de destruir a escultura ou cobri-la - Eliza Gonzalez e os filhos escolheram "vesti-la" com a parte de cima de um biquíni e uma canga.

"Mas achei que ela ficou mais sexualizada e 'objetificada' com as roupas", disse Gonzalez.

A casa é famosa pelas esculturas de gelo "criativas".

No ano passado, eles fizeram um busto bastante realista do então recém empossado presidente Barack Obama.


Retirado d'O Globo

16 dezembro 2009

Ultimatum

A todos em Copenhague, e fora dele.



Ouça antes de ler!

Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora.
Fora tu, Anatole-France, Epicuro de farmacopeia-homeopática, ténia-Jaurès do Ancien-Régime, salada de Renan-Flaubert em louça do século dezassete, falsificada!
Fora tu, Maurice-Barrès, feminista da Acção, Chateaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio!
Fora tu, Bourget das almas, lamparineiro das partículas alheias, psicólogo de tampa de brasão, reles snob plebeu, sublinhando a régua de lascas os mandamentos da lei da Igreja!
Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade!
Fora! Fora!
Fora tu, George-Bernard-Shaw, vegetariano do paradoxo, charlatão da sinceridade,
tumor frio do ibsenismo, arranjista da intelectualidade inesperada, Kilkenny-Cat de
ti próprio, Irish-Melody calvinista com letra da Origem-das-Espécies!
Fora tu, H. G. Wells, ideativo de gesso, saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade!
Fora tu, G. K. Chesterton, cristianismo para uso de prestidigitadores, barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialéctica cockney com o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocínios!
Fora tu, Yeats da céltica-bruma à roda de poste sem indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês!
Fora! Fora!
Fora tu, Rapagnetta-Annunzio, banalidade em caracteres gregos, «D. Juan em Pathmos» (solo de trombone)!
E tu, Maeterlinck, fogão do Mistério apagado!
E tu Loti, sopa salgada fria!
E finalmente tu, Rostand-tand-tand-tand-tand-tand-tand-tand!
Fora! Fora! Fora!
E se houver outros que faltem, procurem-nos por aí pra um canto!
Tirem isso tudo da minha frente!
Fora com isso tudo! Fora!


Ai! que fazes tu na celebridade, Guilherme-Segundo da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!
Quem és tu, tu da juba socialista, David-Lloyd-George, bobo de barrete frígio feito de Union Jacks?!
E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga, caída no chão de manteiga para baixo?
E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda Briand-Dato. Boselli da incompetência ante os factos todos os estadistas pão-de-guerra que datam de muito antes da guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados para baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!
Senão querem sair, fiquem e lavem-se.
Falência geral de tudo por causa de todos!
Falência geral de todos por causa de tudo!
Falência dos povos e dos destinos — falência total!
Desfile das nações para o meu Desprezo!
Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César!
Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem muita corda senão parte-se!)
Tu, organização britânica, com Kitchener no fundo do mar mesmo desde o princípio da guerra!
(It 's a long, long way to Tipperary and a jolly sight longer way to Berlin!)
Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristismo e vinagre de
nietzschização, colmeia de lata, transbordamento imperialóide de servilismo engatado!
Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque se partiu!
Tu, «imperialismo» espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos!
Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda transatlântica nasal do modernismo inestético!
E tu, Portugal-centavos, resto da Monarquia a apodrecer República, extremaunção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas naturais em África!
E tu, Brasil, «república irmã», blague de Pedro-Álvares-Cabral, que nem te queria descobrir!
Ponham-me um pano por cima de tudo isso!
Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!
Agora a filosofia é o ter morrido Fouillée!
Agora a arte é o ter ficado Rodin!
Agora a literatura é Barrès significar!
Agora a crítica é haver bestas que não chamam besta ao Bourget!
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
Agora a religião é o catolicismo militante dos taberneiros da fé, o entusiasmo
cozinha-francesa dos Maurras de razão-descascada, é a espectaculite dos pragmatistas cristãos, dos intuicionistas católicos, dos ritualistas nirvânicos, angariadores de anúncios para Deus!
Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado de lá!
Sufoco de ter só isto à minha volta!
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas!
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!

Álvaro de Campos