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03 fevereiro 2011

Hoje eu acordei na cidade errada.

Não era Porto, mas a cidade do meu coração. Nela eu vi os edifícios tão cinzas e mal-cuidados e as pessoas que eu tanto amo.

Veio-me uma, depois duas, três em fotografias desfocadas seguidas de dez milhões de desconhecidos.

Eu pensei no caos, na violência, no dinheiro colorido - e tão triste! como se quisesse se convencer de que é capaz de vencer às belezas das gentes.

Eu pensei no calor, no vapor que sobe e toma forma visível no asfalto esburacado e no quanto eu amo e tenho preguiça de tudo isso.

Hoje eu acordei na cidade grande, sentado numa esquina de bar, delirando com sua insensatez.

Quanto sentimento cabe dentro de mim.

As vezes duvido que ele fica aqui dentro. É tão grande que desconfio que perambula por aí, à toa. Num dia de sorte, como hoje, nos encontramos e me sinto tão grande em mim e tão pequeno perto dele.

http://listen.grooveshark.com/s/Mood+Indigo/37IsDC?src=5

31 maio 2010

Perdidos?

Control C + Control V do comentário perspicaz de Lorena (Mundo a la Deriva) sobre Lost.

"
Aqui deixo a vocês alguns links que a nossa querida Maria nos passou, caso queiram quebrar mais suas cabecinhas pensando na série:

Lost, 6ª temporada, episodios 17 y 18, “The End”

Claridad y Distinción: Desenredamos el final de LOST

¿Qué ha pasado en Lost?

Adiós, Lost


e dois videozinhos para rir com isso:




"
Retirado do Mundo a la Deriva

24 março 2010

Falando sobre Ética e Política

Esse e-mail recebi do meu padrinho, não sei se o texto é dele, mas achei conveniente colocar aqui, e justo agora, nesse dia 24, feriado pelo aniversário do Golpe de Estado Argentino:

"Cá pra nós, pergunto:

Entre brasileiros livres de vínculo com uma bandeira partidária, há alguns entre os quais nem José Serra nem Dilma Roussef despertam simpatia.

Desolados, esses eleitores constatam que a corrupção do PSDB e a do PT se revelou éticamente comparável, economicamente similar e politicamente equivalente.

Sem ilusão, para eles não resta mais do que a fria comparação dos
indicadores sociais e econômicos do governo anterior e os do atual, publicados pelo jornal "The Economist” ?

Análise do The Economist


Governo anterior

Governo atual

Risco Brasil

2.700 pontos

200 pontos

Salário Mínimo

78 dólares

210 dólares

Dólar

Rs$ 3,00

Rs$ 1,78

Dívida FMI

Não mexeu

Pagou

Indústria naval

Não mexeu

Reconstruiu

Universidades Federais Novas

Nenhuma

10

Extensões Universitárias

Nenhuma

45

Escolas Técnicas

Nenhuma

214

Valores e Reservas do Tesouro Nacional

185 Bilhões de Dólares Negativos

160 Bilhões de Dólares Positivos

Créditos para o povo/PIB

14%

34%

Estradas de Ferro

Nenhuma

3 em andamento

Estradas Rodoviárias

90% danificadas

70% recuperadas

Industria Automobilística

Em baixa, 20%

Em alta, 30%

Crises internacionais

4, arrasando o país

Nenhuma, pelas reservas acumuladas.

Cambio

Fixo, estourando o Tesouro Nacional.

Flutuante: com ligeiras intervenções do Banco Central

Taxas de Juros SELIC

27%

11%

Mobilidade Social

2 milhões de pessoas saíram da linha de pobreza

23 milhões de pessoas saíram da linha de pobreza

Empregos

780 mil

11 milhões

Investimentos em infraestrutura

Nenhum

504 Bilhões de reais previstos até 2010

Mercado internacional

Brasil sem crédito

Brasil reconhecido como investimento grande




Uma vez apurados e comprovados esses resultados do governo atual, e superados quaisquer preconceitos estetizantes, o voto pelo PSDB ainda pode ser considerado uma escolha objetiva, ou passa a ser nada mais do que um a priori, uma reação epidérmica insustentável conceitualmente?"

08 setembro 2009

PORTELA nunca vi coisa mais bela





Rio de Janeiro, 08 de Setembro de 2009.



O encontro com a Velha Guarda

“não sigo o caminho dos antigos: busco o que eles buscaram”. Bashô


Tive a sorte e o imenso privilégio de conviver toda essa semana, começando com o sábado na feijoada da portela, com a essencia tão bonita e verdadeira do samba e das pessoas que genuinamente o defendem em um partido alto da criatividade, da sensibilidade, da humildade, do cerne da cultura popular, do amor. Samba....Essa coisa que recria, que expande, que torna tudo melhor e mais bonito, porque é um tipo especial de alegria na comunhão com todos. E no encanto gerado, na essencia compartilhada, tive a sorte do destino me reservar a oportunidade priveliada de na quadra da portela aprofundar a vida, nas histórias de Waldir 59: O número 1 da velha guarda da portela, o grande parceiro de Candeia, quem trouxe Clara Nunes e Paulinho da Viola para este chão azul de nossa história, de nossa música. Waldir é um ser encantador , tão encantador que não consigo agora reunir todas as melhores palavras que devia para descrever essa sensivel, humilde, generosa personalidade, que por uma bendição dos céus terei a maravilhosa e divina oportunidade de conviver nessa minha vida no rio de janeiro, registrando suas histórias apoiando no que possa para que seja reconhecido , valorizado e divulgado esses nossos mestres populares, essa historia de poesia e de luta...para que todos possam conhecer não só nossa verdadeira história... como um pouco dessa sabedoria que recicla a vida. Nessa caminhada de anos.... agora se inicia um novo ciclo.... juntando com tudo que aprendi dos indígenas agora viverei com esses projetos de registro do samba....porque afinal tudo se trata de um assunto: o amor pelas culturas e pela poesia desse nosso Brasil, tão importante nas expressões do povo, seja ele qual for. É a humanidade que se engrandece com essse tipo de arte... e o que eu puder fazer para defender-la e fazer viver em toda sua plenitude... farei com toda energia, com todo amor.

Como o assunto é vasto e o tempo é curto, deixo aqui as primeiras fotos e os primeiros escritos dessas notícias da história do samba, da portela, do povo.... para encher a quadra de tambores de curiosidade. Para cantar a esperança de compartilhar coisas mais profundas nessa vida....

amor
anita.

Portela na avenida

(Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro)

Portela
eu nunca vi coisa mais bela
quando ela pisa a passarela
e vai entrando na avenida
parece
a maravilha de aquarela que surgiu
o manto azul da padroeira do Brasil
nossa senhora aparecida
que vai se arrastando
e o povo na rua cantando
é feito uma reza, um ritual
é a procissão do samba abençoando
a festa do divino carnaval

Portela
é a deusa do samba, o passado revela
e tem a velha guarda como sentinela
e é por isso que eu ouço essa voz que me chama
Portela
sobre a tua bandeira, esse divino manto
tua águia altaneira é o espírito santo
no templo do samba

as pastoras e os pastores
vêm chegando da cidade, da favela
para defender as tuas cores
como fiéis na santa missa da capela

salve o samba, salve a santa, salve ela
salve o manto azul e branco da Portela
desfilando triunfal sobre o altar do carnaval

01 setembro 2009

Rio de Janeiro.

O Rio de Janeiro é a única cidade das que conheço que não conseguiu expulsar a natureza.

Paul Claudel

Nessa tarde aprendi com meus avós ( é otimo morar com os avós, sabe aquela coisa de culturas tradicionais, indigenas, africanas, etc etc que a sabedoria tá nos mais velhos e que voce pode aprender um milhão de coisas sobre a vida e sobre a historia do mundo de escutar repetidamente o que eles falam? eu tenho a sorte de integrar o time dos que vivem essa tradição milenar....) e eles me comentaram que foi Paul Claudel, o irmão da Camile Claudel , amante de Rodin... que disse que esta frase : " deus escreve certo por linhas tortas" era um ditado portugues que ele escutou no Brasil. Eu não sabia que Paul Claudel, o poeta, tinha passado anos no Rio de Janeiro. Imagina só! não fazia idéia mesmo.... se eu fosse viva naquele tempo dava um jeito de roubar a Camile Claudel para viver aqui no Rio... levava num samba para curar a doidisse, falava para ela esculpir a pedra do pão de açucar para adoçar a vida, e quem sabe, entre a diversa e maravilhosas curvas da natureza ela não teria sido tão mais feliz.... e faria escultura em bronza da maravilha que é o mar.

Bem... acho que é isso povo, deveria por um poema de Claudel sobre o rio aqui, não sei se existe vou pesquisar. Depois conto. To atrasada e queria por alguns dados interessantes a mais que descobri sobre as maravilhas do rio, mas escrevo depois, to atrasada.
Salve o Samba e bora Fazer viver o Brasil.

Anita.

Revolta

Vai abaixo e-mail que recebi hoje (com uma semana de atraso, aliás):

"Caro Lucas Botelho,

Bom dia!

Nossa biblioteca é particular e destinada ao uso dos alunos dos cursos das Faculdades de Filosofia e Teologia São Bento, dos cursos de Pós Graduação aqui existentes, professores e monges. Atendemos também pesquisadores externos desde que enviem com antecedência (por e-mail) os dados da pesquisa e as obras a serem consultadas; se for esse o seu caso lhe atenderemos com certeza. O uso das dependências da biblioteca somente para estudo sem que esteja relacionado às condições acima não é permitido.

Atenciosamente,

Cesar Garcia
"

Lendo isso não pude conter minha fúria. Apesar de faltarem palavras vou tentar exprimi-la aqui:

- Não sou terrorista, criminoso. Apenas um estudante querendo estudar. Mas um estudante descendente dos latinos, com sangue quente! E esse e-mail foi a gota d'água que me leva a falar sobre:


BIBLIOTECAS EM SP (olhem lá, em São Paulo. Imaginem no resto do Brasil...)

- O sistema bibliotecário é um absurdo! O atraso é gritante. Não há acervo informatizado (que dirá digitalizado!), logo não há sistema integrado. Para saber se o livro está disponível (coisa rara, aliás) tem que ir até o local. Tudo bem, se as bibliotecas não tivessem em média 10 quilometros de distância entre si;

- As obras são velhas, caindo aos pedaços. Não há novas aquisições;

- Não há obras estrangeiras à disposição;

- Reservar livros é impossível. Se informar por telefone também, ou seja, para pegar um livro é necessário ficar indo e vindo às bibliotecas sem garantias de sucesso;

- Há pouquíssimas bibliotecas (deveria ser uma por bairro);

- A principal biblioteca - a Mário de Andrade, na Xavier de Toledo - está há mais de 1 ano em reforma. Reformar é bom, mas o prazo de entrega era janeiro de 2009...;

- Bibliotecas fecham cedo;

- As bibliotecas são podres!;

- Não há previsões de mudança, nem campanhas de inclusão. Falta vontade política dos governantes e, o que é pior, dos cidadãos.


MAS ELE SURTOU, O QUE ELE SUGERE?

- As bibliotecas francesas, por exemplo, têm acervos interligados;

- A Bibliothèque Nationale de Paris, por exemplo, tem milhares de obras digitalizadas e, dentre estas, muitas disponíveis para download. (http://www.bnf.fr/) - Confiram as digitalizações no link Gallica;

- O Centro Georges Pompidou tem tudo o que você quiser em PORTUGUÊS também. (http://www.centrepompidou.fr/home30ans/index.html). Aliás, nova independência não é o pré-sal, mas criar algo parecido com o Pompidou - coisa que, infelizmente ainda demora...;

- Em Barcelona algumas bibliotecas ficam abertas 24 horas! (por que não?);

- Em Toulouse há uma biblioteca por bairro (http://www.bibliotheque.toulouse.fr/accueil_bibliotheques_quartier.html) - não esqueçam, Toulouse tem 400.000 habitantes e muito provavelmente mais bibliotecas que em São Paulo;

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Sem bibliotecas não há espaço para estudo. Sem onde estudar não há país letrado. Sem país letrado nunca finda nepotismo, miséria e tudo o que daí provem.

As bibliotecas humanizam a cidade, aumentam o contato dos cidadãos com a cidade, pois normalmente é uma atividade que pode ser feita a pé.

O livro é o espaço sagrado.

Ler é sagrado e constante. Mas se é para ser uma luta, estamos aqui também! Não abro mão do que é meu.

(...Às vezes acho que o jeito é proibir o livro, para ver se as pessoas reagem...)
Muitas pessoas tem que começar a correr perigo (isso é uma ameaça)

FAÇAMOS PASSEATAS E GREVES POR BIBLIOTECAS DECENTES!
TRAVEMOS A FRANCISCO MORATO, A FARIA LIMA, A RADIAL LESTE, MARGINAIS!
SENHORES, TEMOS UMA BOA CAUSA.

P.s.: Obrigado Faculdade de São Bento, por cutucar a ferida.

ZAMBA PARA NO MORIR

Meu povo,

Zambas, Chacareras, Bailecito todo o folclore Argentino é maravilhoso. Mas uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, e tem muitas outra coisas dentro dessas coisas. Hahaha.. Chacarera de las Piedras é uma Chacarera, de Atahualpa Yupanqui, um das maiores pessoas que já passou por este continente, que registrou e criou muitas músicas do folclore não só argentino como Latino Americano. Que tão belamente Canta Mercedes Sosa. Chacarera se dança
sem o panuello ( lencionhos lindos). Já a ZAMBA dança homens e mulheres com lencinhos... e é tão , tão lindo. Quem nunca viu, e nunca dançou, vale a pena... é um acontecimento na alma.
Deixo aqui a letra de uma Zamba que eu particularmente gosto muito. E o interesse, eterno de sempre trocar e divulgar essas maravilhas das culturas , populares, de nosso continente.

http://www.youtube.com/watch?v=zvlHZmaFQ3Q

Romperá la tarde mi voz
Hasta el eco de ayer.
Voy quedandome solo al final
Muerto de sed, harto de andar.
Pero sigo creciendo en el sol,
Vivo.

Era el tiempo viejo la flor,
La madera frutal.
Luego el hacha se puso a golpear,
Verse caer, solo rodar.
Pero el árbol reverdecerá
Nuevo.

Al quemarse en el cielo
La luz del día, me voy
Con el cuero asombrado me iré
Ronco al gritar que volveré
Repartido en el aire a cantar
Siempre.

Mi razón no pide piedad
Se dispone a partir.
No me asusta la muerte ritual
Solo dormir, verme borrar.
Una historia me recordará
Vivo.

Veo el campo, el fruto, la miel
Y estas ganas de amar.
No me puede el olvido vencer
Hoy como ayer siempre llegar.
En el hijo se puede volver
Nuevo.

Al quemarse en el cielo...

26 agosto 2009

caraminholas à revelia, e por vontade própria

mundo corre.
à nossa revelia, o mundo corre.

mas porém:
é o desejo que faz a vida. Não apenas a gente nasce do sexo, mas também por toda a vida nos sentimos vivos quando desejamos. O desejo impulsiona o movimento, e o desejo é a pórpria energia, ele é em si o próprio movimento.

então o mundo só existe a partir da nossa vontade, de cada um e de todos juntos.
a vida e o mundo são feitos da energia dos desejos.

ah...
é o desejo que existe à nossa revelia.

e benza-deus, que bom!!!

18 agosto 2009

Trap

Em volta de mim tudo é cidade

Tudo é cidade

Nada escapa ou renuncia
Nada deixa viver

Tudo estilhaço
Tudo atravesso
Tudo deixo passar

Tudo seres
Tudo máquina 
Tudo trabalho

Trabalho
Trabalho

14 agosto 2009

na terra de sarneys.

O visão de glauber rocha não ficou diferente. Se somaram cores ainda mais estúpidas ao cenário.
Poucas coisas doem tanto, doem como a fome (fome essa que nenhum de nós nunca sentiu). Bem.... ainda bem que o maranhão e todos nós, nesse continente e planeta, temos a música e por elas poder contruir algo que transcende.
Deixo aqui para que conheçam uma linda canção de Silvio Rodrigues, Cubano... chamado como o chico buarque de cuba, para facilitar a introdução.
Ojalá, oxala.... hasta la victoria siempre...
Sueño con Sierpentes.
OS QUE LUTAM

Há aqueles que lutam um dia; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam muitos dias; e por isso são muito bons;
Há aqueles que lutam anos; e são melhores ainda;
Porém há aqueles que lutam toda a vida; esses são os imprescindíveis.
Bertold Brecht
Sueño con serpientes, con serpientes de mar,
con cierto mar, ay, de serpientes sueño yo.
Largas, transparentes, y en sus barrigas llevan
lo que puedan arrebatarle al amor.

Oh, la mato y aparece una mayor.
Oh, con mucho más infierno en digestión.


No quepo en su boca. Me trata de tragar
pero se atora con un trébol de mi sien.
Creo que está loca. Le doy de masticar
una paloma y la enveneno de mi bien.

Ésta al fin me engulle, y mientras por su esófago
paseo, voy pensando en qué vendrá.
Pero se destruye cuando llego a su estómago
y planteo con un verso una verdad.
(1974)

04 agosto 2009

OS DESLIMITES DA PALAVRA

OS DESLIMITES DA PALAVRA

Explicação Desnecessária


Na enchente de 22 a maior de todas as enchentes
do Pantanal, canoeiro Apuleio vogou 3 dias e 3
noites por cima das águas, sem comer sem dormir -
e teve um delírio frásico. A estórea aconteceu que
um dia remexendo papéis na Biblioteca do Centro
de Criadores da Nhecolândia, em Corumbá, dei com
um pequeno Caderno de Armazém, onde se anotavam
compras fiadas de arroz feijão fumo etc. Nas últimas
folhas do caderno achei frases soltas, cerca de
200. Levei o manuscrito para casa. Lendo as frases
com vagar imaginei que o desolo a fraqueza e o
medo talvez tenham provocado, no canoeiro, uma
uma ruptura com a normalidade. Passei anos penteando
e desarrumando as frases. Desarrumei o melhor que
pude. O resultado ficou esse. Desconfio que, nesse
caderno, o canoeiro voou fora da asa.

Dia Um

1.1

Ontem choveu no futuro .
Águas molharam meus pejos
Meus apetrechos de dormir
Meu vasilhame de comer.
Vogo no alto da enchente à imagem de uma rolha.
Minha canoa é leve como um selo.
Estas águas não têm lado de lá.
Daqui só enxergo a fronteira do céu.
(Um urubu fez precisão em mim?)
Estou anivelado com a copa das árvores .
Pacus comem frutas de carandá nos cachos.

1.2

Eu hei de nome Apuleio .
Esse cujo eu ganhei por sacramento.
Os nomes já vêm com unha?
Meu vulgo é Seo Adejunto – de dantes cabo-adjunto
por servimentos em quartéis.
Não tenho proporções para apuleios.
Meu asno não é de ouro.
Ninguém que tenha natureza de pessoa pode esconder
as suas natências.
Não fui fabricado de pé.
Sou o passado obscuro destas águas?

25 maio 2009

Analfabetismo escrito

Óleo na máquina e pau no gato. Anda, bora (re)começar a escrever. Que preguiça que nada, agora ninguém vai me segurar. Solto a língua, desenrolo os dedos no teclado e o som das palavrinhas se formando já me preenche a alma de um estranho e perigoso prazer. Cigarro no dedo, costas se aprumando na cadeira, bora que o mundo não espera ninguém.
Eita espera que aqui dentro tá difícil de exprimir por mais que se esprema custa sair. É valioso demais ou é falta de assunto que corrompe neste exato minuto ou dias ou meses que já não me aguento. Que não me faço entender, já sei não mais explicar o quê. Acontece.
Acontece.
Sempre acontece assim: que num dia sem mais, sei que dia não, dia sim, dia não, dia assim, é isso que dá deixar a cabeça governar. Instrumento falho é a cabeça. Precisamos mais é de outras coisas mais. Outros órgãos estimulantes, incensos, ansiolíticos, calmantes naturais. Controlar quem nos controla a torto e a direito.
Não peço desculpas pelo texto em frangalhos tenho mais é que expressar antes que me engulam nessa vida.
Que o leitor se deixe diluir, se deite, degole, deguste-me. Leitor é pressas coisa mesmo.

27 abril 2009

01 março 2009

Doença Crônica

Começou assim de mansinho, quando eu era pequeno:

No meio do passo rápido, (num dia daqueles cheio de passos rápidos) parei e ouvi. Ué. Tá lá, eu tô aqui. Parei e ouvi. Não é assim que a música funciona? O rádio em cima da estante de madeira, detrás de uma porta de vidro, num universo que não me pertencia.
Quando se está na rua, o estabelecimento comercial encerra-se em si mesmo, impossibilitando ao passante de não-entrar. É praticamente impossível hoje, numa cidade como a cidade de São Paulo, entrar e não consumir.
Eu quebrei esta regra - e veja bem - não porque bem queria quebrá-la, mas o som não respeita linha, porta, calçada, vizinho e ouvido. Muito menos ouvido. Eu consumi o que aquele lugar havia para oferecer, querendo ele ou não.

Peguei o bloquinho (um dia de passos requer sempre um bloquinho) e anotei.

Nessa brincadeira do bloco, entre uma e outra escrita, percebi que não se tratava de uma simples curiosidade. Junto à anotação, associa-se um fiel companheiro: o Google; ferramenta primordial para qualquer ser urbano, proporcionando o descobrimento de qualquer música, seja lá qual for, se uma frase o tiver, e em questão de segundos você já a está ouvindo seguidamente, como que decorando o refrão, ou vendo o clipe no youtube.

A internet cresceu comigo. Neste tempo anotei cinco mensagens de texto, dezena de frases, uma quinzena de folhas. O recheio delas permanece intacto, até o momento em que se clique "search" e à partir daí o mundo desdobra-se do papel, sai do 2D.

O problema é que a lista vai tornando-se cada vez mais ampla, e o meu "momento-google" cada vez mais curto. Enquanto isso, o caderninho vira uma colcha de retalhos, esperando o momento certo para esvaziá-lo, de tanto peso e de tanto som que ele carrega.

Vai mais uma do caderninho. Dessa vez, de um amigo meu, que cantarolou, assim como quem não quer nada. Mal sabia ele que estaria no caderninho algum tempo depois.

Será que o Google pode achar a cura pra isso?

Gero Camilo - Vai Desabar

23 fevereiro 2009

Carnaval

Em São Paulo, no carnaval, não consigo deixar de me perguntar: Por quê (raios) não existe carnaval em São Paulo? Ou melhor, por quê São Paulo deixa de existir no carnaval? Andando de carro pelas ruas nesta tarde me vi numa cidade absolutamente desértica; portas fechadas, nem carro nem gente nem cães circulavam pelos cantos da hipermegalópole em pleno domingo de carnaval. Os paulistanos se mandaram, não sobrou nenhum folião para fazer a festa, nada de fantasia, tamborins ou confetes deram um colorido à cidade-cinzenta. Será que nem no carnaval, a maior orgia festeira do Brasil, o nosso ícone, aquilo que nos diferencia brasileiros do resto do Planeta, a cidade São Paulo consegue se divertir um pouquinho? Deixar de ser tão cinza e tão entediada? Vamos São Paulo! Vamos se fantasiar, vamos fingir por pelo menos quatro dias que não somos assim tão trabalhadores, tão atarefados, tão compromissados, tão terninhos e taiers! Vamos São Paulo! Vamos invadir a Paulista de peito de fora, vamos jogar serpentina no prédio do Itaú, vamos rebolar descalços na Faria Lima! Deixa de ser, São Paulo! Vistam suas máscaras! Secretárias, se transformem em vampiras, Margaridas, feiticeiras ou odaliscas! Executivos, vistam a roupinha de marinheiro e mandem tudo às favas! A gente pode, aqui sim, no Brasil, aqui pode tudo no carnaval. Resta-me (que tristeza) ligar a televisão e assistir ao desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, babar pelas mulatas cariocas que são tão mais mulatas que as paulistanas.

12 fevereiro 2009

Viagem de volta

Volta, meu irmãozinho, volta. Que você partiu e me deixou a ver navios em frente ao mar. Que você me deixou só com o Rubi. Volta, irmãozinho, para fazermos música, pra conversarmos noites afora, pra passearmos na noite linda de São Paulo, em meio a fumaça, mendigos e luzes, mas linda. Volta baby brother, a Avenida São Luís não é a mesmo sem ti. O porteiro Otaviano manda notícias, também ele sente saudades. Volta que quando você foi parecia que tudo morria. Volta Gordines. Venha ver essa gente bronzeada mostrar seu valor. Que Europa que nada. Aqui estamos com a faca e o queijo. Não neva. A gente é quente por dentro e por fora. Volta que as mulatas te querem no sambódromo no carnaval. Volta que a Inês faz tutu de feijão pra você. Volta, irmãozinho, que o Guimarães pra mim caiu no esquecimento, sem você por perto pra me ler trechos cansativos e geniais. Venha ver a tua irmã de cabelo curto. Venha ver a vista do Ambassador - 8b. Venha que nada mudou muito. Nada mudou. Tudo te espera. Venha ver a minha peça que estréia no dia do seu aniversário. Venha irmãozinho. Venha ver Irene rir e venha mostrar tua risada. Que Europa que nada. Vamos dar cambalhota, assistir Chaves, perseguir o Tom Zé, Gero Camilo, nos entupir de comida em Jaú. Vem meu irmãozinho que já não dá mais pra não te ter por perto. Vem que o coração arde.

15 janeiro 2009

O que é o que é?

Eu sou de cada um um pouco/ Um pouco amontoado - diz o Gero Camilo.
Enquanto eu: eu sou um amontoado de cada um um pouco.
Tenho um braço de cada tamanho e olhos de cores diferentes. Tenho língua de um, cheiro de outro. Tenho medo de amor. Sinto forte, tenho suor de uns três, quatro, cinco. Tenho voz de muitas. Amor de mãe, dor de filha. Tenho eu com cinco anos, treze anos, dezenove. Sou amontoado de fotos, fatos, pactos de vida e morte, arrependimentos e marés de sorte. Um aglomerado de tias, vós, bisavós. Enterros. Linhas da mão. Passado e futuro no aquiagora. Sou todos os corpos que passaram por mim. Tenho pernas de mil antepassados, força de mil espíritos. Sou Logun Edé. Tigre. Virgem ascendente Touro. Sou minha mãe, meio Bel meio Ana, meio Clara Iza, meio Marina, meio Julia. Meio Cecília. Sou minhas mulheres em mil, em mil em mim. Sobreviventes de guerra me habitam, sobrevivi ao nascimento e chorei nos piores e melhores momentos. Sou uma qualquer. Uma lembrança. O que poderia ter sido. A máxima potência. O menor pecado. De carne osso e sentimento que corta e sangra. Sou todas as menstruações, sou óvulo e espermatozóide. Sou as piores trepadas e os melhores orgasmos. Sou cabelos caindo no ralo, olheiras na ressaca, sou produto frágil: cuidado que entorna. Sou venenosa e líquida. E fleumática e melancólica. E chega disso.

06 dezembro 2008

Lalma

Escreviver

é

adormamortecer.


Fundo ir em frente
Seguir rumo são

Paulo me pertence?

Para eterneternizar
esquecer parece bom

Deixa que a alma lembra confia na alma a alma sabe sim
ela que vive e morre a vida inteira
Ela sim
ela lembra

Eterneternizar é escreviver mansamente.

Comalma. Com. Calma.

25 novembro 2008

O dia em que o teatro se revelou morte dentro de mim

Aqui morte e vida pulsam juntas
de mãos dadas com o precipício
se faz uma cena

Onde está?

Um sopro de vida
pinceladas tênues
vindas do dentro fundo
abismo de nós

Um pincel fincado no coração
pra expressar cor da alma
cor de vida morte quase quase
Ator Artaud

Ficar em contato
permanecer dentro de mim
em contato
alma vida morte
com tudo o que aqui está
o aspecto do Humano
que está presente em
todos nós

embora nos esqueçamos disso

05 novembro 2008

Obama

Espero que não esqueçamos que no Brasil os pretos vivem como se ainda num Quilombo.