12 março 2009

Le Roi A Fait Battre Tambour

Texto encontrado em 1842, em Sologne - França




Diz-se aludir ao Rei Sol, Louis XIV, ao mesmo tempo que seus personagens são reais.

O que mais gosto é o diálogo fixo "5 por 5", entre o Rei e o Marquês. Enquanto o Rei ordena, a batida é seca; enquanto o Marquês reclama é suave e triste.


Le Roi a Fait Battre Tambour, ou, O Rei Ordenou que Rufassem os Tambores.

Le roi a fait battre tambour

Le roi a fait battre tambour

Pour voir toutes ses dames

Et la première qu'il a vue

Lui a ravi son âme


Marquis, dis-moi, la connais-tu?

Marquis, dis-moi, la connais-tu?

Qui est cette jolie dame?

Le marquis lui a répondu

Sire roi, c'est ma femme


Marquis tu es plus heureux que moi

Marquis tu es plus heureux que moi

D'avoir dame si belle

Si tu voulais me l'accorder

Je me chargerais d'elle


Sire si vous n'étiez le roi

Sire si vous n'étiez le roi

J'en tirerais vengeance

Mais puisque vous êtes le roi

votre obéissance


Marquis ne te fâche donc pas

Marquis ne te fâche donc pas

T'auras ta récompense

Je te ferai dans mes armées

Mon maréchal de France


Adieu ma mie, adieu mon coeur

Adieu ma mie, adieu mon coeur

Adieu mon espérance

Puisqu'il te faut servir le roi

Séparons-nous ensemble…


La reine a fait faire un bouquet

La reine a fait faire un bouquet

De jolies fleur de lys

Et la senteur de ce bouquet

A fait mourir marquise…




Em português, a letra vai mais ou menos assim:
(tradução própria)




O rei ordenou que rufassem os tambores

O rei ordenou que rufassem os tambores

Para ver todas as damas

E a primeira que viu

Capturou-lhe a alma


Marquês, dize-me, a conheces?

Marquês, dize-me, a conheces?

Quem é esta bela dama?

E o marquês lhe respondeu

Senhor rei, é a minha mulher


Marquês, és mais feliz que eu

Marquês, és mais feliz que eu

Por teres tão bela dama

Se desejas ver-me feliz

Eu me incumbirei dela


Senhor se não fôsseis o rei

Senhor se não fôsseis o rei

Já me haveria vingado

Mas como sois o rei

A vós serei obediente


Marquês não te aborreças

Marquês não te aborreças

Terás tua recompensa

Far-te-ei junto ao meu exército

O Marechal de (minha) França



Adeus minha querida, adeus meu coração

Adeus minha querida, adeus meu coração

Adeus minha esperança

Porque a ti servirás o rei

A modo a nos separar...



A rainha ordenou que fizessem buquês

A rainha ordenou que fizessem buquês

De lindas flor-de-lis

Cujo olor de tais buquês

Fizesse matar uma marquesa

06 março 2009

O amor

Às vezes o amor é isso: aprender que a perfeição não existe e por isso sair de si. Então, num susto maior, a perfeição se faz, calada, feia, problemática, única que vi. A perfeição humana.

Poética filosófica ou Estética hermética (ou...?)

(...) Não me interessa a concepção deles, mas a poética que aflora neles (...)

(Extrato de um texto que ainda não existe)

France, deux esquisses

Ela dissimulou: disse: queria ter filhos com o namorado dela. Disse isso um segundo depois de perceber que o meu corpo pensava nela. De fato eu já desejava-a, com todas as forças. Arrebatá-la de seu namorado e levá-la comigo, com seu jeito igual a todas as francesas; feminista, dominadora, irredutível.
Mas vi que não era nada - o amor se foi e segui eu, sozinho, mais um pouco.
A chuva tá solta no vento, estranha
Faz que cai mas não cai

O calor continua
O vento faz que venta mas só confunde
Faz barulhos nos galhos

Os passarinhos devem estar em suas casinhas
Já não fazem mais a folia costumeira

-Os pássaros são mais alegres que os franceses
Mas eles têm muito mais medo...

Devem estar escondidos, no escuro
Preocupados com o barulho e o frio
(que os assustam)
úmidos
Pensando em nada

Se eles pensassem, pensariam:
No frescor do dia seguinte
no orvalho do dia seguinte
no céu azul do dia seguinte.
Pensariam em dormir logo
para acordarem em família e a salvo
para se prepararem para a folia do dia seguinte...

A chuva toca as folhas, mas não chega ao chão
muito menos refresca,
neste meio de verão
Francês.

(Agosto.2009 - Toulouse)

01 março 2009

Doença Crônica

Começou assim de mansinho, quando eu era pequeno:

No meio do passo rápido, (num dia daqueles cheio de passos rápidos) parei e ouvi. Ué. Tá lá, eu tô aqui. Parei e ouvi. Não é assim que a música funciona? O rádio em cima da estante de madeira, detrás de uma porta de vidro, num universo que não me pertencia.
Quando se está na rua, o estabelecimento comercial encerra-se em si mesmo, impossibilitando ao passante de não-entrar. É praticamente impossível hoje, numa cidade como a cidade de São Paulo, entrar e não consumir.
Eu quebrei esta regra - e veja bem - não porque bem queria quebrá-la, mas o som não respeita linha, porta, calçada, vizinho e ouvido. Muito menos ouvido. Eu consumi o que aquele lugar havia para oferecer, querendo ele ou não.

Peguei o bloquinho (um dia de passos requer sempre um bloquinho) e anotei.

Nessa brincadeira do bloco, entre uma e outra escrita, percebi que não se tratava de uma simples curiosidade. Junto à anotação, associa-se um fiel companheiro: o Google; ferramenta primordial para qualquer ser urbano, proporcionando o descobrimento de qualquer música, seja lá qual for, se uma frase o tiver, e em questão de segundos você já a está ouvindo seguidamente, como que decorando o refrão, ou vendo o clipe no youtube.

A internet cresceu comigo. Neste tempo anotei cinco mensagens de texto, dezena de frases, uma quinzena de folhas. O recheio delas permanece intacto, até o momento em que se clique "search" e à partir daí o mundo desdobra-se do papel, sai do 2D.

O problema é que a lista vai tornando-se cada vez mais ampla, e o meu "momento-google" cada vez mais curto. Enquanto isso, o caderninho vira uma colcha de retalhos, esperando o momento certo para esvaziá-lo, de tanto peso e de tanto som que ele carrega.

Vai mais uma do caderninho. Dessa vez, de um amigo meu, que cantarolou, assim como quem não quer nada. Mal sabia ele que estaria no caderninho algum tempo depois.

Será que o Google pode achar a cura pra isso?

Gero Camilo - Vai Desabar

23 fevereiro 2009

Carnaval

Em São Paulo, no carnaval, não consigo deixar de me perguntar: Por quê (raios) não existe carnaval em São Paulo? Ou melhor, por quê São Paulo deixa de existir no carnaval? Andando de carro pelas ruas nesta tarde me vi numa cidade absolutamente desértica; portas fechadas, nem carro nem gente nem cães circulavam pelos cantos da hipermegalópole em pleno domingo de carnaval. Os paulistanos se mandaram, não sobrou nenhum folião para fazer a festa, nada de fantasia, tamborins ou confetes deram um colorido à cidade-cinzenta. Será que nem no carnaval, a maior orgia festeira do Brasil, o nosso ícone, aquilo que nos diferencia brasileiros do resto do Planeta, a cidade São Paulo consegue se divertir um pouquinho? Deixar de ser tão cinza e tão entediada? Vamos São Paulo! Vamos se fantasiar, vamos fingir por pelo menos quatro dias que não somos assim tão trabalhadores, tão atarefados, tão compromissados, tão terninhos e taiers! Vamos São Paulo! Vamos invadir a Paulista de peito de fora, vamos jogar serpentina no prédio do Itaú, vamos rebolar descalços na Faria Lima! Deixa de ser, São Paulo! Vistam suas máscaras! Secretárias, se transformem em vampiras, Margaridas, feiticeiras ou odaliscas! Executivos, vistam a roupinha de marinheiro e mandem tudo às favas! A gente pode, aqui sim, no Brasil, aqui pode tudo no carnaval. Resta-me (que tristeza) ligar a televisão e assistir ao desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, babar pelas mulatas cariocas que são tão mais mulatas que as paulistanas.

16 fevereiro 2009

Com a alma encharcada

Esses dias antes de dormir fiz uma frase linda na minha cabeça... nunca vou lembrar dela tão linda e precisa que foi... vai ver não era pra ser minha e um dia alguém vai dizer ela pra mim. já estou com saudade da minha frase...

tenho me sentido que nem uma aquarela
há pouco eu estava tão forte, concentrada...
e agora me diluo cada vez mais
estou ficando em tom pastél
estou tão aguada que minha página vai se rasgar e molhar todas as minhas palavras.

(Do blog "esse meu cafofo" da Cla, aí à direita)

15 fevereiro 2009

Berlinale

Como esquecer do minuto de silêncio espontâneo dos espectadores de "Garapa", do José Padilha, diante da Fome retratada no filme?
Admiração por ele. Depois de estourar nas bilheterias com "Tropa de elite" usou de sua notoriedade para mostrar um Brasil profundo, atemporal, desamparado e nada comercial.
Esse diretor promete muito ainda.

***

Destaque para o filme ganhador do festival, "La teta asustada", que chama a atenção pela Direção de Arte, pela atriz , pela direção, pelo roteiro profundo e por ser peruano.
Força à América Latina!
Vale a pena pelas entrelinhas.

PS: A qualidade das salas de cinema de Berlim é absurda. Aliás, Berlim é absurda.

12 fevereiro 2009

Viagem de volta

Volta, meu irmãozinho, volta. Que você partiu e me deixou a ver navios em frente ao mar. Que você me deixou só com o Rubi. Volta, irmãozinho, para fazermos música, pra conversarmos noites afora, pra passearmos na noite linda de São Paulo, em meio a fumaça, mendigos e luzes, mas linda. Volta baby brother, a Avenida São Luís não é a mesmo sem ti. O porteiro Otaviano manda notícias, também ele sente saudades. Volta que quando você foi parecia que tudo morria. Volta Gordines. Venha ver essa gente bronzeada mostrar seu valor. Que Europa que nada. Aqui estamos com a faca e o queijo. Não neva. A gente é quente por dentro e por fora. Volta que as mulatas te querem no sambódromo no carnaval. Volta que a Inês faz tutu de feijão pra você. Volta, irmãozinho, que o Guimarães pra mim caiu no esquecimento, sem você por perto pra me ler trechos cansativos e geniais. Venha ver a tua irmã de cabelo curto. Venha ver a vista do Ambassador - 8b. Venha que nada mudou muito. Nada mudou. Tudo te espera. Venha ver a minha peça que estréia no dia do seu aniversário. Venha irmãozinho. Venha ver Irene rir e venha mostrar tua risada. Que Europa que nada. Vamos dar cambalhota, assistir Chaves, perseguir o Tom Zé, Gero Camilo, nos entupir de comida em Jaú. Vem meu irmãozinho que já não dá mais pra não te ter por perto. Vem que o coração arde.

09 fevereiro 2009

escrevinhagora

oquemeviernalicimamente

tantoloucoestandoquantoamanhãsendosão
prabrincardegizdeceraóleopasteldefeirarrozanzol
vá! sesuj'anilnachuvan'aguadaquarela
irouvirosomsótaquebaianoquevem?
esperumsimelevajunto.


mashá(dehaver)depor
sinistrofinisto...
- não irás nunca!!! huahahahahahaa!!!

03 fevereiro 2009

Esquizofrenia

Querer juntar dois mundos,
tudo o que não é de um mesmo lugar.

um
amor
dois
amor
uma. amor um.


querer. dois mundos. díspares.
querer um só, que não existe.

(do blog "o galo da vizinha", da Ana)

Um pouco mais

Aproveito o ensejo e completo com outra dica.
Pra quem não conhece, o blog do Antonio Prata http://blog.estadao.com.br/blog/antonioprata/ (infelizmente num formato pior que o da antiga página, claro).

E por outro lado, um blog promissor, novinho em folha: http://tomadadeopiniao.blogspot.com/

01 fevereiro 2009

29 janeiro 2009

Elas, as

Não sou máquina de escrever. Meus dedos doem de bater no teclado depois de noites incessantes de palavras e cocaína. Tremem. Que eu durmo sonho acordo escrevo durmo. Escrevo dormindo. Escrevo acordando. No carro, na ioga, na sala de estar, trepando com meu namorado, assistindo tevê. É que palavras me perseguem. Frases chegam prontas na minha cabeça e eu tenho a obrigação de armazená-las em mim. Não escolho o momento em que chegam. Elas vêm quando querem (quando não querem não vêm). E quando cismo em escrever sobre elas, as palavras, saem correndo de mim. Acho que não gostam da metalinguagem, preferem ser utilizadas para escrever sobre outros temas ( e é possível escrever sobre tantos, não? As palavras dão conta de tantos temas!). Todos os temas estão nas palavras. E elas me vêm assim, aos montes, às vezes toneladas de palavras caem sobre mim durante o dia, então as descarrego no caderninho, no blog, na parede, no travesseiro, no ralo do chuveiro... Mas eu não sou máquina de escrever. Sou coisa de sentir de viver, não quero ter que escrever sempre e detestaria ser escritora (escrever por obrigação é um fardo!).
E agora, tendo dito isso, todas as palavras se perderam de mim, me deixaram só, de frente para o branco da tela que é igual ou pior que o branco do papel em branco.

27 janeiro 2009

acercadelos SONHOS

Dor mente

No escuro,
sempre escuro
preto mudo surdo,
revejo tudo
noutra ordem:
calmo é bravo
braço é olho,
sabor machuca e som se toca.

No escuro

o sono burro,

fundo, pode ser

bonito.
O sonho cicatriza a vida?

Siñ

15 janeiro 2009

O que é o que é?

Eu sou de cada um um pouco/ Um pouco amontoado - diz o Gero Camilo.
Enquanto eu: eu sou um amontoado de cada um um pouco.
Tenho um braço de cada tamanho e olhos de cores diferentes. Tenho língua de um, cheiro de outro. Tenho medo de amor. Sinto forte, tenho suor de uns três, quatro, cinco. Tenho voz de muitas. Amor de mãe, dor de filha. Tenho eu com cinco anos, treze anos, dezenove. Sou amontoado de fotos, fatos, pactos de vida e morte, arrependimentos e marés de sorte. Um aglomerado de tias, vós, bisavós. Enterros. Linhas da mão. Passado e futuro no aquiagora. Sou todos os corpos que passaram por mim. Tenho pernas de mil antepassados, força de mil espíritos. Sou Logun Edé. Tigre. Virgem ascendente Touro. Sou minha mãe, meio Bel meio Ana, meio Clara Iza, meio Marina, meio Julia. Meio Cecília. Sou minhas mulheres em mil, em mil em mim. Sobreviventes de guerra me habitam, sobrevivi ao nascimento e chorei nos piores e melhores momentos. Sou uma qualquer. Uma lembrança. O que poderia ter sido. A máxima potência. O menor pecado. De carne osso e sentimento que corta e sangra. Sou todas as menstruações, sou óvulo e espermatozóide. Sou as piores trepadas e os melhores orgasmos. Sou cabelos caindo no ralo, olheiras na ressaca, sou produto frágil: cuidado que entorna. Sou venenosa e líquida. E fleumática e melancólica. E chega disso.