27 janeiro 2010

mensagem do sato - ívios e prazer

Recebi esse email do grande SATO ja faz mais de um mes e, como estive por fora dos emails nesses tempos, só o li agora. Acho que ainda ta em tempo de publicá-lo aqui, em meio a esses dilúvios e enquanto a galera se guarda pra quando o carnaval chegar:

Amigos bons

2009. Ano após ano escrevo alguma parada no fim de ano. Talvez pra acobertar erros futuros ou prazeres passados. Sempre ter em mente. Passar. Livrar a cara. Mandar um basta. Tanto faz. Hoje é quase amanhã e tenho que começar de alguma forma. O fim de ano foi trevas. E no final, nem tanto, nem tanto. O dramaturgo levou 4 tiros, enfrentou a cidade furiosa e permaneceu. Provavelmente mais forte, porém, diferente. O casal perfeito provou a sua inexistência e passou dias nos tribunais do trânsito, antes de ensinar a filha que precisa olhar pros dois lados antes de atravessar. Estão diferentes, mas provavelmente mais fortes. Eu perdi uma grande amiga, sem me despedir, chorar em velas ou recortar fotos de jornal. Perdi e sei que perdi mais ainda, pois não a tinha mais. A distância em cidade grande triplica em dias de chuva. E o celular, quando não toca? E a mensagem quando a gente não manda? A gente depende tanto e reclama mais ainda, mas se conforta no perigo do desleixo. Afinal, a cidade grande faz barulho, a luz faz barulho, o silêncio faz barulho. Precisamos de mais apagões por ano, pra silenciar de verdade e parar de vibrar em repouso.
Eu já acho normal tanta coisa absurda. Todo moleque que vem me pedir grana no farol, acho normal. Acho normal nem procurar nos bolsos alguma moeda. Aquela gente triste que se aborrece depois que acontece alguma tragédia na porta de casa, acho normal. Acho normal não me sensibilizar pela sorte
alheia. A vizinhança que, em berros, desautoriza as leis democráticas de condominio em varais do hall social, acho normal. Acho normal se algum estampido surdo de um tapa ecoar pelos andares abaixo. Tanto nego, que na hora agá, na hora do vamos ver, se esconde no muro dos fundos, acho normal.
Acho normal que tudo é desculpa pra evolução da tolerância. E o que é absurdo afinal?
Temos que aquietar. Tudo é tão veloz e passageiro, o que fica? Temos que aquietar. Reconquistar os dias de descanso, rede, sono e sonho. Acordar por minutos, talvez horas. Acordar vendo a manhã virar dia. Temos que aquietar. Sentir a falta, saber do despreparo, do impróprio. Entender os limites do entendimento. Querer a despedida. Procurar a memoria tranquila e pendurar as fotografias. Temos que aquietar. Perceber os pequenos milagres cotidianos. Dar importância. Receber o recado. Deixar vingar apenas a serenidade. Em pratos quentes. E quando se aquieta assim, não digo pra aceitar a derrota ou
subir em cima do muro ou se tornar um arredio velho rabugento. Quando a nossa alma aquieta, estamos muito mais fortes pra enfrentar os dissabores, as dívidas mal-pagas, os atrasos da incoveniência. Libertos pra revolucionar a vizinhança com idéias mirabolantes, livros novos e gargalhadas afiadas. Alívio. E se alívio é prazer, já tá tudo certo. Além do prazer, precisamos de que afinal?
Prazer, mano, prazer. Tão simples como diferenciar novamente o que é normal e o que é absurdo. E o que é bom e ruim nisso. E o que queremos de verdade da normalidade e do absurdo. Na verdade. Só isso. A todos, silêncio. Aquietar um pouco pra, enfim, barulhar em fogos de artifício. Barulhar o alívio, barulhar o prazer. Isso em 2010 pra sempre.
Beijo a todos. Sato

5 comentários:

sofia disse...

Maravilhoso.
Coisas simples que me esqueço de alembrar: silêncio. Quietude. Calma.
Pra mim, o silêncio tem virado sinônimo de tédio, e quando me entedio quero ir pra rua ver gente, me intoxicar, botar pra dentro, botar pra dentro, botar pra dentro. Eita buraco humano que não preenche nunca! Quem sabe não será esse aquietar-nos que irá nos salvar? Nos redimir? Nos deixar menos sangue sugas, incompletos, escravos da diversão, do barulho, do álcool...

Chico disse...

Eu vou precisar de um bom tempo pra digerir esse silencio. E sato, quem eh?

nai disse...

corpo coração quieto
sentir passar nuvens céu e vento
amor sereno eterno
alívio

ufa
respirar enfim

Daniel disse...

o sato é um amigo que, dentre outras coisas, é sushiman

Anônimo disse...

lágrimas cairam, dificil. me identifico. muito bonito, gostaria de ler outras coisas do Sato. Por um momento ao meio da leitura me senti em uma sala escutando um bom amigo...