29 novembro 2009

Experiência Hermética



Anteontem, aqui em Buenos Aires, fez um show ninguém menos que Hermeto Pascoal.
Aliás, não fez, deu um show. Deu-nos um banho de sua mais do que cáspita presença.
Eu fui.
Ele me impressionou de tantas formas e tantas vezes, que eu botei um sorriso que sequer titubeou durante o concierto inteiro, e lá ele se manteve, teimoso e acomodado. Deve estar la até agora, pleno e satisfeito na poltrona do Gran Rex, se re e ressorrindo pro restinho de Hermeto que sobrou e lá vai morar a partir de agora.
Eu nunca tinha ido a show dele, mas ja deu pra ter a certeza de que são todos ímpares, de que é sempre um espetáculo, muito diferente do último e de todos. Seu ânimo e sua atividade eram realmente incríveis, como se ele estivese vivendo ali o ápice da sua carreira, bem diferente de um veterano tocando sentado seus temas rasos sobre um futuro curto.
Mas não é nem isso, a verdade é que ele é um cara atemporal, eternamente ativo, e sem planos de descenso.
Hermeto tem algo de divino. Sua onipresença farejava-se de longe, desde a hora em que eu entrei no teatro. Ela quase toma uma forma visível, por meio de sua música transbordante, e ele não precisa nem estar no palco. E daí surge o seu não-estrelismo, ao deixar e voltar ao palco sem alarde, a qualquer momento, como se sua presença física fosse o de menos.
A parte engraçada foi cuando o seu teclado o traiu e parou de funcionar. Depois de muito insistir em suas teclas mudas, ele perdeu a paciência, as estribeiras, mas não a compostura, e muito menos a classe. Esbofeteou-o como velho experiente, tirou o sapato, e sapatada no teclado! Até que os técnicos entraram correndo pra trocar o instrumento. E a banda lá, hermetando. Sem o teclado, mas não sem o tchan, ele sacou uma chaleira da algibeira e foi acompanhar a banda. Ovação. Depois, com o seu novo teclado, tudo dentro da mesma música, entoou um samba improvisado sobre como ele não tinha teclado, sobre como o som não podia parar e sobre como os desesperados técnicos de som eram maravilhosos. Hermeto.
Pois eis que ei-lo aí, aqui, ativo e reativo como sempre, como um garoto brincando com o seu violão novo, como um ancião que fala bebe cospe fura sua sôa música, como uma montanha sábia, da maiores.
Gracias Hermeto.

4 comentários:

Chico disse...

Gosto do jeito como você escreve.
Também gosto do Hermeto.

Que comentário tosco perto desse texto, mas eu só queria deixar minha marquinha.

Escreva mais Có. Por favor.

Agatha disse...

Que maravilha tê-lo a Coh que coloca tudo em palavras tãao lindas. Por minha parte o único que posso dizer é, que estive lá e foi desse jeitinho mesmo. Beijos

Coh disse...

Caray Chico! quanta lisonja!

Caray Agatha, quanta lindeza!

sèríssimo.

Coelho! disse...

Belíssimo texto Có!

Por um tempo incalculavel me senti no show. Da-lhe Có. Da-lhe Hermeto!

Creio que este meio - que não ouso mais de chamar apenas de blog, por sua constante colaboração - está evoluindo muito. Sem fronteiras e com muita liberdade.

Fico muito feliz em participar e ver todos com tanto empenho!