21 julho 2009

o processo da escrita (clarice lispector)

O processo de escrever é feito de erros – a maioria essenciais – de coragem e preguiça, desespero e esperança, de vegetativa atenção, de sentimento constante (não pensamento) que não conduz a nada e de repente aquilo que se pensou que era ‘nada’ era o próprio assustador contato com a tessitura de viver – e esse instante de reconhecimento (igual a uma revelação) precisa ser recebido com a maior inocência, com a inocência de que se é feito. O processo de escrever é difícil? Mas é como chamar de difícil o modo extremamente e caprichoso e natural como uma flor é feita. (’Mamãe’, disse-me o menino – ‘o mar está lindo, verde com azul, e com ondas! Está todo anaturezado! Todo sem ninguém ter feito ele!’) A impaciência enorme ao trabalhar (ficar de pé junto da planta para vê-la crescer e não se vê nada) não é em relação à coisa propriamente dita, mas à paciência monstruosa que se tem (a planta cresce de noite). Como se dissesse: ‘não suporto um minuto mais ser tão paciente’, ‘a paciência do relojoeiro me enerva’ etc. O que impacienta mais é a pesada paciência vegetativa, boi servindo ao arado.

"Então escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra.Quando essa não-palavra - a entrelinha - morde a isca, alguma coisa se escreveu."

3 comentários:

sofia disse...

Como pode essa mulher?
Escrever tão perfeita e maravilhosamente sobre a própria escrita. Como podem as palavras lhe obedecerem tão bem??
é que Clarice é tão respeitável e gigante que até as palavras tem medo dela.

Lucas disse...

Esse texto me caiu como uma luva, era o que eu tava precisando... acho que é essa presença feminina, esse lado inexplicável...
(me faltam palavras...)

... disse...

É gente.
Tão bom quando abre-se novas dimensões do mundo com aquelas mesmas coisas que sempre usamos ne? as palavras que tomam delirio e nos levam a outros lugares que não tinhamos vistos que com os mesmos elementos poderiam se formar. A poesia.... ainda bem que pode e como seria bom viver mais só dela.
hasta...