09 outubro 2009

O CINEMA CONTEMPORÂNEO E CLAUDE DEBUSSY

É realmente imposivel que exista uma imagem cinematográfica que não tenha o suposto ‘verbo’, ‘substantivo’ e ‘adjetivo’, senão que apenas um deles? É dizer, o cinema está ou não - no contexto da época atual, o ‘cinema contemporâneo’ – sob a linearidade dos significantes? E em uma segunda esfera, se não há movimento sem ação e não há ação sem percepção - e portanto, sem percepção não há movimento -, como se dá a criação do movimento nos filmes do cinema contemporâneo se substituimos a ação pela afecção sozinha?

É quase um clichê dizer que o cinema contemporâneo está feito através do fracasso da imagem-ação, da acão sensório-motora, e que se prende muito mais a uma imagem-afecção, a situação óptico-sonora em que se põe os personagens e por consequência o espectador. Vemos um homem trabalhar; sua memória sendo semeada, assim como uma larva se esconde na terra negra. E o que se vê além disso? O fora de campo se infla em nossa imaginação e esse espaço extra-visual se mescla com os sentimentos do personagem. É isso que vemos no filme realizado por estudantes da Uba, aqui em Buenos Aires. A consigna era transpôr o trabalho de Debussy para uma outra plataforma (audiovisual). E se o filme se enquadra no panorama desse cinema contemporâneo ao qual nos referimos, é justamente por que ele recicla uma matéria-prima em uma nova norma gramatical cinematográfica em que predomina o minimalismo narrativo e uma ambiguidade generalizada digna do cinema de Antonioni. É o que chamam por aí de cinema de autor. Mas, justamente nos dias de hoje - a contemporâneidade - se pode falar de um cinema de autor? Porque vivemos nessa época do não-lugar que é a internet, a anarquia virtual que herdamos da luta pela liberdade dos 60'. Devemos esquecer o conceito de 'autor' e partir pra frente (ou retroceder ao que acontecia com a literatura grega antiga - antes dos poemas épicos. O anonimato. A liberdade de usar o trabalho do outro, de ressignificar o que quer que seja).

Como encontrar então uma nova forma de narrar num tempo em que a narrativa está a beira da extinção? Como criar algo 'novo' em uma época em que o original é a cópia?

Nesse trabalho que selecionei para postar aqui - nesse não-lugar à revelia - eles evidenciam justamente esse poder de narrar a história de um personagem através do que não se vê, através de tudo aquilo que ele refere menos que daquilo que se mostra dura e claramente. Debussy, se certa forma, também o fez - no campo da música. Conseguiu em determinada época mostrar uma melodia através da não melodia, através de tudo o que está afora da melodia. "A música orquestral de Debussy é a que corresponde melhor à sua imagem de impressionista. Em 1894, o Prelúdio à tarde de uma fauna, baseado no poema de Mallarmé, causou estranheza pela 'ausência de melodia': Debussy lançou na verdade, a sugestão de um tema melódico, sem desenvolvimento. Os Noturnos (1893-1899), O mar e Imagens para orquestra (1909) pareciam confirmar a imagem do músico vago, cujas melodias não tinham contornos definidos e cuja construção harmônica parecia desarticulada: o tom poético dos títulos confirmaria a imagem de uma música 'literária'. Mas a poesia estava na música, na liberdade melódica, na pesquisa dos timbres, numa nova construção harmônica. O efeito disso era uma nova e estranha sonoridade."

Debussy, então, foi o primeiro cineasta contemporâneo (fora de seu meio). Por mostrar através de um meio não imagético uma porção de luminosidades e desenfoques, por conseguir através do que está fora de sua música, fazer com que o ouvinte seja capaz de imaginar (ou seria sonorizar?) essa melodia escondida, mas iluminada pela sua ausência. O seu trabalho também era uma propria transposição: da literatura, para as alturas melódicas (ou as não-alturas).



PRELÚDIO À TARDE DE UMA FAUNA:

por: Claude Debussy





MELODIA PÁLIDA PARA UM HOMEM SOLITÁRIO:

por: Maria del Mar Andrés de Tejada
Maximo Ciambella
Melina Adiliberti
José Antonio Calvo

5 comentários:

Lucas disse...

Agora o nosso blog tá parecendo revista das boas, com análises interessantes de vários temas!
Adorei Tatá, bem legal essa interação e combinação de linguagens, essencial!
Esse pessoal do vídeo é da sua faculdade?

Octávio disse...

é não.... eles são da Uba..... mas to sainda da minha e vou pra lá ano que vem.... A Uba, além de ser pública trabalha muito melhor a experimentação e novas plataformas.......Ela está.... digamos.... à revelia........

Daniel disse...

é... temos que nos empregnar dessas essências, debussy, malarmé, e.e.cummings...

demorei pra comentar esse post... ta denso! gostei bastante... queria conversar sobre duas coisas:
-quanto a essa frase "não há ação sem movimento", o que seria o não-movimento?
-o que quer dizer com essa afecção do cinema contemporâneo?

tem novos filmes seus pra compartilhar conosco, tata?!

saudaciones brasileñas

Octávio disse...

Acho que justamente não existe o não-movimento. Porque sempre existe uma ação. Isso de certa forma responde a pergunta que fiz, se era possível que uma imagem tivesse só um verbo, ou só um substantivo ou só um adjetivo. A imagem-ação seria o "verbo" da imagem. A imagem-percepção seria o "substantivo". E, por fim a imagem-afecção seria o "adjetivo". O conjunto dessas imagens é o que forma a imagem-movimento, ou a "oração" cinematográfica. Acho que sempre dentro de uma imagem cinematografica vai haver os três. Mas o cinema contemporâneo agarra uma delas (afecção, quase sempre) e escancara. É como se em uma frase "Gabriel, aquele garoto malcriado, roubou o brinquedo de Julieta", você passasse a dizer: Garoto malcriado. Julieta. E todo o resto fica a cargo da imaginação do expectador que "se infla" a partir do que "não se vê". Tudo isso a partir de um ponto de vista absolutamente Deleuzeano. Segundo ele a affecção é a imagem que absorve uma ação exterior e reacciona interiormente. E o cinema contemporâneo explora basicamente isso. Mas com o titulo de autor. Devemos seguir com os direitos de autor? Ou devemos buscar um novo sistema para que artistas ganhem com o que fazem?

Octávio disse...

Tudo livre para todos!