
Fiorde Christiania', de Vladimir Báranov-Rossiné, de 1915, óleo sobre tela
Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem).
No bar ruim que ando freqüentando ultimamente o proletariado atende por Betão – é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar “amigos” do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
– Ô Betão, traz mais uma pra a gente – eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gâteau e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gâteau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar ruim. Tem que ser um bar ruim autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar ruim que nenhum outro meio intelectuais, meio de esquerda, freqüenta, não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar ruim.
O problema é que aos poucos o bar ruim vai se tornando cult, vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns velhos bêbados que jogavam dominó. Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV. Nós gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro, isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam cinqüenta por cento o preço de tudo. (Eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares ruins do jeito que a gente gosta, os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares ruins de gente jovem e bonita e a difundir o petit gâteau pelos quatro cantos do globo. Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, saca?).
– Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim. De Salinas quais que tem?
por Antonio PrataNa idade média os livros eram escritos pelos copistas à mão. Precursores da taquigrafia, os copistas simplificavam o trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios, por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido (tempo era o que não faltava naquele tempo). O motivo era de ordem econômica: tinta e papel eram valiosíssimos.
Foi assim que surgiu o til (~), para substituir uma letra (um "m" ou um "n") que nasalizada a vogal anterior. Um til é um enezinho sobre a letra, pode olhar.
O nome espanhol Francisco, que também era grafado "Phrancisco", ficou com a abreviatura "Phco." e "Pco". Daí foi fácil Francisco ganhar em espanhol o apelido Paco.
Os santos, ao serem citados pelos copistas, eram identificados por um feito significativo em suas vidas. Assim, o nome de São José aparecia seguido de "Jesus Christi Pater Putativus", ou seja, o pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde os copistas passaram a adotar a abreviatura "JHS PP" e depois "PP". A pronúncia dessas letras em seqüência explica porque José em espanhol tem o apelido de Pepe.
Já para substituir a palavra latina et (e), os copistas criaram um símbolo que é o resultado do entrelaçamento dessas duas letras : &. Esse sinal é popularmente conhecido como "e comercial" e em inglês, tem o nome de ampersand, que vem do and (e em inglês) + per se (do latim por si) + and.
Com o mesmo recurso do entrelaçamento de suas letras, os copistas criaram o símbolo @ para substituir a preposição latina ad, que tinha, entre outros, o sentido de "casa de".
Veio a imprensa, foram-se os copistas, mas os símbolos @ e & continuaram a ser usados nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre o número de unidades da mercadoria e o preço - por exemplo: o registro contábil "10@£3" significava "10 unidades ao preço de 3 libras cada uma". Nessa época o símbolo @ já ficou conhecido como, em inglês como at (a ou em).
No século XIX, nos portos da Catalunha (nordeste da Espanha), o comércio e a indústria procuravam imitar práticas comerciais e contábeis dos ingleses. Como os espanhóis desconheciam o sentido que os ingleses atribuíam ao símbolo @ (a ou em), acharam que o símbolo seria uma unidade de peso. Para o entendimento contribuíram duas coincidências:
1 - a unidade de peso comum para os espanhóis na época era a arroba, cujo "a" inicial lembra a forma do símbolo;
2 - os carregamentos desembarcados vinham freqüentemente em fardos de uma arroba. Dessa forma, os espanhóis interpretavam aquele mesmo registro de "10@£3" assim : "dez arrobas custando 3 libras cada uma". Então o símbolo @ passou a ser usado pelos espanhóis para significar arroba.
Arroba veio do árabe ar-ruba, que significa "a quarta parte": arroba (15 kg em números redondos) correspondia a ¼ de outra medida de origem árabe (quintar), o quintal (58,75 kg).
As máquinas de escrever, na sua forma definitiva, começaram a ser comercializadas em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar seus originais datilografados). O teclado tinha o símbolo "@", que sobreviveu nos teclados dos computadores. E
m 1872, ao desenvolver o primeiro programa de correio eletrônico (e-mail), Roy Tomlinson aproveitou o sentido "@" (at), disponível no teclado, e utilizou-o entre o nome do usuário e o nome do provedor. Assim "Fulano@Provedor X" ficou significando "Fulano no provedor X".
Em diversos idiomas, o símbolo "@" ficou com o nome de alguma coisa parecida com sua forma, em italiano chiocciola (caracol), em sueco snabel (tromba de elefante), em holandês, apestaart (rabo de macaco); em outros idiomas, tem o nome de um doce em forma circular: shtrudel, em Israel; strudel, na Áustria; pretzel, em vários países europeus.
Reinaldo Pimenta em "A Casa da Mãe Joana"Umas das coisas mais bonitas que já vi. Lindo, de não consigo descrever.
Só corpo, forma, o mais primitivo, que agora com a técnica mais apurada passa a existir de novo. E é assim, e existe: resumo de movimento, de vida, de gozo.
Puro gozo em imagem. Imagem que não é
pura – por isso o gozo – movimento, respiração, historia, individualidade, esforço, paixão, paixões e todo a rede complexa de trabalho e prazer que as envolve e estimula.
Muita coisa no mais simples que temos: corpo. Braços, pernas, cabelo, junto com tudo o que você pode contar e ser entendido sem ter que abrir a boca nenhuma vez. O corpo deles é o corpo meu. Não tenho a capacidade, mas. Mas é o mesmo corpo. Somos nós ali.
Humano humano, humano humano.
Waldir 59 é o número 1 da Velha Guarda da Portela, o mais antigo compositor, protagonista e detentor, da história do samba do Rio de Janeiro. Waldir é conhecido como verdadeira “lenda viva do samba”, pois não só foi o parceiro inseparável de Candeia e o responsável por Clara Nunes e Paulinho da Viola terem integrado a comunidade azul e branca da Portela, como participou do filme Orfeu do Carnaval (sendo responsável por toda parte musical do samba), e até hoje em seus 80 anos, mantém ( criando, organizando e inspirando) a verdadeira tradição do samba.
Seja compondo para Zeca pagodinho, Marisa Monte, participando de partido alto e do carnaval, ou sendo um dos diretores assessores da Portela, Waldir 59 contribui todos os dias para sua comunidade com a verdadeira poesia (fazendo viver por ela tantos ideais; como o desvelo, a humildade, a crítica social, a generosidade e o amor- transmitidos brilhantemente em suas letras e na energia do samba.) Mas não é só com sua comunidade que Waldir contribui, é com todo o Brasil - por ter criado boa parte das mais lindas músicas que cantam (e encantam) até hoje o povo.
Mantendo a história e o espírito dessa expressão da cultura popular que ele mesmo ajudou a criar ao longo de sua vida, Waldir 59 é jurado na escolha dos sambas enredos da atualidade, é fomentador de rodas de novos compositores, é em seu ser a memória viva e a inspiração para que as novas gerações não deixem de cultivar o verdadeiro valor da música popular brasileira, frutificando-o em suas comunidades.
“Porém, ai porém....” como diria Paulinho da Viola (na música “O Rio que passou em minha vida” - que alias foi Waldir o responsável por ter lançado-a na Portela) esse grande mestre de nossa tão amada cultura popular – o samba - não é reconhecido e valorizado como merecia em âmbito Nacional e enfrenta sérias dificuldades para continuar realizando seu trabalho e sua vida , pois esta quase completamente cego e não possui condições financeiras para realizar o tratamento médico que necessita. Mas Waldir 59 é um “caso diferente”, de humanidade, pois não se deixa abater pela doença e continua a caminhar sozinho pelas ruas do Rio com muito esforço ( gratificante ele garante) porque o permite freqüentar todas as rodas de samba. Diz Waldir 59 (diante do espanto de toda gente de como consegue ir de cá para lá de lá para cá de ônibus e andando): eu me oriento pelo que está gravado na memória - junto a toda a valiosa história do samba - o caminho de casa até a Portela.
Assim, é no sentindo de possibilitar que esse grande mestre venha a ter sua importância reconhecida, suas histórias documentadas e divulgadas, e a valiosa oportunidade financeira de tratar de seu grave problema de saúde, é que este projeto está escrito em seu nome, cujo prêmio acreditamos ser merecedor e que representará uma inestimável ajuda, para que no final de sua vida esse grande mestre possa viver com toda a dignidade que merece.
Em anexo está um Dvd desse incrível mestre dando seus depoimentos, respondendo a essas questões e a tantas outras, que cala fundo dentro do peito e ressoa , profundamente, no cerne de nossa cultura e alma brasileira.
Meus queridos....tive a divina oportunidade de conviver todos esses dias com seu Waldir 59, não só o melhor sambista que já conheci, importantissimo para a história da música brasileira, como a pessoa mais carinhosa, sincera, lúcida que já conheci nesse Rio de amor....
Deus é muito bom e me concedeu a oportunidade de ajudar-lo e increver-lo no prêmio de grandes mestres da cultura popular do ministerio da cultura....pois apesar de sua imensa importancia para toda nossa alegria, e magia do samba, sua condição financeira o impossibilita de fazer um tratamento médico ...e se ele não fizer...vai ter que amputar os olhos....mas....deus há de ajudar ainda mais que possamos fazer cds, documentários, ir a cuba! para ajudar seu waldir e consequentemente a alma e a história de nossa música popular brasileira. Por favor todos façam uma oração em forma de samba para que o projeto seja aprovado e possamos dar essa dignidade a ele , a todos nós.
COm todo amor e desvelo...anita.